sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Terra Santa

[Confusão]

Estamos às tantas, envoltos em revoltas;

Estamos às tantas, aplaudindo àqueles que na beleza dos jardins preferem as flores mortas;

Estamos por aqui e por ali, nos debatendo como peixes fora d'água, clamando pela faca afiada;

Estamos por inteiro e outros que não se sabe ao certo se estão certos de si, torpes e anestesiados encarando o abismo ao som de gargalhada;

 

[Espetáculo]

Nos tornamos o centro do Mundo, eles estão do lado de fora, nos assistindo em cadeira numerada,

Eles sentem sede, pensam que somos uma nova espécie que se deve extinguir ou ser domesticada;

Eles nos querem, querem tudo aquilo que se esconde sob nossos pés e o que se multiplica em dada floresta;

Querem nos reduzir, nos limitar, nos subordinar, nos dar em garantia as migalhas que lhes resta;

 

[Contundente]

Há entre nós os traidores. São obtusos e ineptos, que se vendem, que querem nos pôr em leilão;

À eles, a falha orgânica e seus corpos em putrefação, serão esquecidos pela história, deixados à inanição.

Há ainda os asseclas, com dedos em riste, declamando seu bem mais caro, o voto, em sinal de submissão.

Em seu epitáfio ler-se á: Bocas que calam sob as terras que ao mundo são raras, um eco mudo que o tempo apagará com um simples “e assim se vão”

 

[Atrevidas]

Não nos cabe ajoelhar, não nos cabe reverenciar, não se gabem antes de acabar.

Não cabemos em outro solo, não cabemos como ornamento, não cabemos em jardins em que se atrevam nos limitar.

 Lhes diremos [não].

Lhes daremos punhos fortes,

Lhes permitiremos saber que dentre nossas linhas há homens e mulheres que não se encolherão em submissão.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Passarada

A tarde segue e ao longe, se veem avezinhas desmioladas, do alto das arvores ao arrulhar na calçada;

Estão descontentes com o pleito que houve na floresta, brincam de amotinadas, piam no Alvorada;


Ah a passarada, organizadas num só cantar, desapontadas;

Ah a passarada, do bater de asas ao andar desengonçado pelas ruas, fingindo serem de rapina, de emboscada;

 

[Confusão]

Descontentes com o vento a soprar sob suas asas, fazem barulho;

Cansadas do voo livre, clamam por gaiolas com orgulho

 

Avezinhas descuidadas, voam perto chão, esperam ansiosas pelo som do elástico na ponta da forquilha;

Inocentes ou estúpidas, voam perto demais dos predadores, parecem querer a armadilha;

 

[Tensão]

Eles estão ali, aplaudindo, como quem gosta da brincadeira;

Estão ali e nas mãos, pedras e atiradeira;

 

É estranho ouvir uma outra ave pedir que lhe cortem as asas, que lhe tirem a liberdade;

É assustador ouvi-las, tanta inequidade;

É estranho ouvir uma outra ave piando assim;

É estranho contemplar o por do sol daqui do céu, e imaginar que o que lhe é caro tenha um fim.

 

                                                                Denis Eduardo

sábado, 29 de janeiro de 2022

Sobre você
Sobre eu e você
Ler, decifrar, despir, vê-la sorrir
 
Assim, deitada;
À meia luz, sem meia, sem calça, descalça;
Querendo, balbuciando meu nome, deixando a mim sem graça;
 
Mais luz!
No chão, enquanto se esvai o dia, debruçada;
Enquanto a lua ilumina seu corpo na sacada;
Seu cheiro, sua textura, a ausência da mente no corpo, sua voz engasgada;
 
[Confusão]
Quero continuar, os dedos tremem;
As rimas somem, o tempo parou por um instante;
Em meio a tantos toques você me vem à mente, um rosto sem semblante;
 
Dispa-se por mim;
Deixe que o algodão caia no chão;
Deixe que o relevo dos teus seios chame a minha mão;
 
Deite-se, assim de lado;
Finja um ar despreocupado;
Me olhe nos olhos [inspire];
 
[Confissão]
“Minhas pernas, já não respondem ao impulso”, ela diz;
Não sei negar à sua presença, o que foi que eu fiz?
Estou entregue, ao seu alcance;
Estou inerte, estou em transe;

[respire]

A lifetime

Two languages, one tongue;
Walk alone, be more than you were made to be;
Fly free;
 
Use it;
Dare yourself, go further;
Dare the face in the mirror, do not look for cover;
 
Hate them, hate them all;
Love them too,
One existence cannot be expended as a fool;
                                                                                        Denis Eduardo

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Numb

Cloused eyes;
Lying down on the floor;
[Silence]
I can hear her;

Her lips;
Out side of the window;
Her finger tips;
Am'I naked?

Blindness;
Chained;
None blood in my vains;
Something touches my chest;

Motionless and deaf;
You sing silently of hard times;
My verses;
Dying without rhymes;

Where are you?
Somehow I am still here;
Don't you feel the darkness?
Don't you hear this silence?

May I go?

                                                                            Denis Eduardo

sábado, 18 de maio de 2019

Sujeito

Ele, um sujeito que não se esconde ou que mereça ser                                                                                           mostrado;
Não tem pai ou mãe, nem inteligente nem retardado; 
Apenas mais um com ar de coitado;

Sujeito reto. Não é simples muito menos composto, sem                                                                          dotes de predicado;

Não tem predileções, não possui sequer bela sombra para                                                                        que seja elogiado;

Um sujeito qualquer;

Oculto no mundo, sem verbo de ligação ou alguém que o                                                                     chame de namorado;

Sujeito indeterminado;

Um serzinho sem eira nem beira;
Um qualquer, que não serve sequer de adorno na prateleira;

Sujeito inexistente;

Desses que a gente despreza na vida;
Que me serviu apenas na rima de outra linha corrida.
            
                                                                         Denis Eduardo



O que não se pode ver

O ar que sopra à nossa volta;
O mesmo ar que se enfurece e bate à nossa porta;
Que molda as montanhas e acaricia as ondas;
No faz tremer brincando de assoviar nas sombras;

A fé que nos toca quando as mãos estão postas;
A mesma força que nos da as costas;

O que não se pode ver;
Tudo aquilo em que não se pode crer;
Um algo bobo;
Um algo a mais que nos guia ao engodo;

O que não se pôde ver;
Que fez então a chama parar de tremer;

Força [sussurros]

E no fim, o que se fez entender.

                                                                     Denis Eduardo